Fininha era a rapariga mais mal criada e ordinária que aquela rua alguma vez tinha conhecido. Falava sempre aos gritos e fazia questão de introduzir nas suas frases duas ou três asneiras para compôr a coisa. As mãos apoiavam-se nas ancas amiúde, como que a dar balanço ao berro seguinte.
A hora preferida para a
Fininha dar o ar de sua graça, era, geralmente, depois da meia-noite, para ter a certeza que toda a gente ouvia, já que as casas estavam mergulhadas no silêncio do sono.
Chunga era um miúdo de andar gingado, boné, brinco de ouro (ou brilhante), unhas roídas e asneira sempre pronta.
Dizia "prontos", "tivestes", "falastes" e escrevia "fodasse" em vez de "foda-se".
A
Fininha e o
Chunga conheceram-se numa feira, ao pé dos carrinhos de choque e desde aí não se separaram mais. O que eles mais gostavam de fazer era discutir no meio da rua, alto e bom som, sem ligar a horas nem a nada. Naquele momento mágico só existiam eles os dois.
Ontem à noite a coisa complicou-se. A
Fininha e o
Chunga não só discutiram (devia ser uma da manhã) como também se envolveram à pancada. Ele chamou-lhe puta e disse que não queria que ela andasse com a amiga que a acompanhava no momento. Ela mandou-o para aquele sítio e disse que ela era sua amiga. Ele disse que ia fazer queixa à mãe dela, que já tinha dito que não queria sua filha
Fininha em tais companhias. Seguiram-se uns estalos e o
Chunga a gritar para ela se ir embora.
Fininha foi, sempre aos berros, rua abaixo, com a amiga maldita pelo braço.
Chunga arrependeu-se e ali ficou, de boné na cabeça, a chamar pela
Fininha, inconsolável nos seus gritos.